terça-feira, 14 de outubro de 2008

SINAIS DE FOGO


A vida, irremediavelmente, é um estresse.
Eu tenho uma vontade louca de quebrar o dedo do pai da garotinha, que permite que ela aperte, insistentemente, o botão do sinal de transito, que quebra, porque tem que quebrar mesmo. Um desejo insano de socar o guarda que fez vista grossa para o homem que estava com ódio do que ouviu no telefone (ou do que não ouviu) e quebrou o orelhão inteiro, sem nada ter feito para impedir ou repreender.
Da mulher que leva seu cão para passear e permite que ele faça pelas ruas, todo o coco que poderia caber em seu intestino e não limpa. Das pessoas que andam em zigue-zague e ocupam toda a calçada, impedindo que alguém passe a frente.
Dos carros que fazem questão de passar pelas poças d´água feitas pela chuva ou pelo estouro de algum esgoto, e derramam aquele líquido fétido em cima de uma roupa limpa e saudável. Dos que avançam o sinal e dos outros que param na faixa de pedestre. Sem contar dos que estacionam no meio da calçada e a gente tem que passar pelo meio da rua.
Dos ônibus que não param no ponto quando damos o sinal e quando param, estão a “quilômetros” de distancia e a gente tem que correr a plenos pulmões, porque as vezes eles vão embora quando estamos chegando perto.
Tenho raiva da humanidade quando vejo os pedintes, que usam seus filhos ou alugam os dos outros. Crianças pequenas com o nariz escorrendo de catarro, os pés descalços e nuas pelas calçadas sujas, tudo para comover o tolo passante, que acha que dando uma moeda vai mudar tudo e não percebe que só alimenta a hipocricia.
Não entendo porque o policial aponta uma metralhadora imensa para quem está caminhando pela calçada, carregando mochilas e filhos que chegam da escola. Nem o som estridente da loja de colchões, que quer atrair seu público com um funk assustador.
E o que falar das pessoas que entregam folhetos de divulgação e forçam uma barra enorme para você pegar aquele papel que vai parar na lata de lixo, sem sequer você ter interesse em saber o conteúdo.
Saio do meu corpo de tanta insanidade com alguns comerciantes que te atendem mal, como se fosse uma ousadia de sua parte ir comprar naquela loja. De quando a gente senta para tomar uma cerveja na beira da rua e não consegue engrenar uma conversa sem ser interrompida centenas de vezes pelos vendedores ambulantes, que também não se intimidam em jogar areia em todo o seu corpo quando você está deitada, tentando pegar um sol na praia, em paz.
Da porta do banco que trava quando você tenta entrar, sem absolutamente nada de metal ou coisa parecida e ainda tem que aturar o sorriso de canto de boca do guarda.
Daquela criança irritante que corre pela loja e abre a cortina do provador que você está. E me deixa roxa a vendedora da loja que te aborda na vitrine da loja, já avisando que naquele lugar não tem nada que caiba em você.
Mas talvez o “hour concurs” sejam os idosos. Coitados! Visados pelos preconceitos e impostos a humilhações da sociedade jovem, que não entende sua maturidade e vivência... Usam e abusam de sua arrogância e esqueçam que os direitos são de todos. Tem também as grávidas, os portadores de deficiência e as mães com crianças no colo. A alegria que um idoso tem de reclamar seu lugar na fila com essas pessoas é qualquer nota! Aquelas velhinhas adoráveis, oriundas de histórias infantis, escondem uma vida de virtudes e vícios, esquecidos pelo romantismo dos direitos conquistados. Não tenho nada contra os direitos, mas contra a forma como se utilizam deles.
Ah, essa vida de estresse, com pequenas coisas da necessária convivência humana. Não temos como escapar desse esbarrão no meio da multidão, nem das pequenas irritações e ódios diários.
Depois de ir a rua, queremos morder a primeira pessoa que passa na nossa frente e criamos um campo de batalha por tão pequenas coisas, que até esquecemos o que é. Ódios produzidos pelo mundo moderno, pela fumaça do ar, pela pressa.
Só me resta sonhar com minha casa no campo e a doce angustia de esperar o dia amanhecer.

Um comentário:

Anônimo disse...

Querida Alê, faço das suas minhas palavras, tantas coisas simples mas irritantes estão em volta de nós diariamente... até quando?
Abraço e beijinhos dôces.
RoPaixão