segunda-feira, 13 de outubro de 2008

DESCONFORTO


No meio da mesa de chope, desviou um olhar para o meu decote. Me contou sobre todas as mulheres que tem comido e dos porres que tem tomado. Às vezes se incomodava quando lembrava do meu vestido que mostrava as pernas. Isso te mostrava que eu não era um amigo de futebol, mas a mulher com quem você dividia a vida até mês passado. Comeu com ansiedade a carne seca com aipim que pediu. Não lembrou que eu detesto carne seca. Entre uma garfada e um gole, me chamou de amor e não se tocou disso. Eu percebi, como todos os gestos camuflados e os toques com o polegar que me dava quando estava nervoso. Parecia um encontro derradeiro, mas era apenas mais um como vários que fazemos durante a semana. Às vezes ele acaba na cama, outras vamos embora como se fossemos dois colegas de classe.
Eu já desarrumei a cama algumas vezes só para lembrar que você dormia nela. Me iludia com teu cheiro no meu travesseiro para que eu pudesse levantar e continuar a vida normal. Chorei copiosamente quando lia um poema que você me declamava e lembrava dos nossos porres e noites de violão. Deixo a tábua do vaso levantada para saber que você está presente. Aproveito para fazer aquela comida que você prefere e a saboreio com um nó na garganta porque sei que o tempero está azedo.
O cd que está tocando é o que você deixou por acaso, depois que levou todas as suas coisas, menos a si mesmo. Ele está no “repeat” e soa como um mantra te chamando para ouvi-lo comigo. Queria que você o levasse de vez, mas não tenho coragem e propor esse corte.
Apesar de estar com fome, meu enjôo não passa. Tem um bolo irritante de angustia no meu estomago. Não sou perfeita, não confundo amor com ego.
A porta da sala ainda tem a marca de suas batidas antes de ir embora. E o copo quebrado cortou o meu pé. Duas, três semanas... nem consigo mais lembrar que isso é depressão.
Você bebe tanto que não lembra onde é o banheiro do nosso boteco de sempre. Quando volta, pede um domec. Seus olhos estão vermelhos, a língua enrolada e as mãos cada vez mais próximas do meu corpo. A gente não para de rir na maior parte do tempo. É sempre assim nossos encontros sem compromissos. As mesmas piadas, as mesmas lembranças dos tempos de amor e tropeços, as conclusões idiotas que chegamos quando nos percebemos tão normais e iguais de sempre. As tantas, com o garçon lavando nossos pés com água suja, você quer pagar a conta. Não aceita divisão. Me pega pelo braço, me abraça forte, me dá um beijo de tirar o fôlego, não fala nada, fico tonta com seu álcool e pegamos um táxi.
A noite deve terminar na cama. E a gente não deve terminar nunca mais.

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